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Sorte e muito suor: receita do sucesso

Você precisa de, no mínimo, 10 mil horas de prática – o equivalente a quase 4,5 anos, trabalhando 40 horas por semana.

Mas “só” isso não basta!

Você precisa estar inserido em um contexto adequado, para ter um sucesso extraordinário. Contexto aqui é a cultura, a época em que você nasceu, quem é sua família, quem são seus amigos, seus antepassados e todo tipo de vantagem “oculta”.

Malcolm Gladwell

Malcolm Gladwell

Essa é a tese central do livro “Outliers” do escritor Malcolm Gladwell, autor dos livros The Tipping Point, Blink, What the Dog SawDavid and Goliath (abordarei esses livros nos próximos posts).

É comum sermos simplistas a ponto de chamar o sucesso de “sorte”.

Mas você só tem sorte se estiver preparado. E aqui Gladwell tenta justificar o sucesso de algumas pessoas contextualizando essa tal “sorte”, mostrando que o sucesso não é apenas uma questão de mérito pessoal. E a lista de exemplos é grade, de Bill Gates a Beatles, passando por Mozart, jogadores de hockey da liga profissional e assim por diante.

Malcolm Gladwell em nenhum momento desmerece as pessoas bem-sucedidas citadas no livro, mas consegue explicar que, além do talento e da dedicação, essas pessoas tiveram “sorte” de estar no lugar certo, na hora certa.

O “sorte” do Bill Gates é um caso emblemático. Nascido em uma familia de classe média, teve a “sorte” de estudar em um colégio em que os pais resolveram comprar um terminal de computador, com dinheiro que sobrou de um bazar anual. Isso possibilitou Gates começar a programar desde muito cedo. Quando abandonou Havard para criar a Microsoft, em seu segundo ano de faculdade, ele já acumulava mais de 10 mil horas de programação. O fator ambiental também conspirou a favor dele. Na década de 70, quando o computador passou a ter um preço acessível, ele era jovem, cheio de energia, morava próximo ao Vale do Sicílio e sua família tinha condições para apoiá-lo. Nesta mesma época apareceram outros “sortudos”: Steve Jobs, Bill Joy, Paul Allen etc.

Coincidência? Sorte? Ou trabalho árduo com uma série de fatores favoráveis?

Outro estudo interessante mostrado no livro é a pesquisa realizada pelos psicólogos da Academia de Música de Berlim, para identificar se a intensidade de estudo e horas de prática diferenciavam os gênios da música dos demais músicos. Aos cinco anos de idade, estes “músicos” praticavam de 2 a 3 horas semanais. Aos oito anos, os melhores começavam a se diferenciar praticando 6 horas por semanas. Com 12 anos, a média desses melhores músicos era de 8 horas por semana. Aos 14 anos, dezesseis horas. Aos 20 anos trinta horas. Pronto! Eles acumulavam 10 mil horas de treinamento e prática. Eram notáveis! Este padrão se repetiu para violonistas e para pianistas.

Falando em música, aqui entra mais um exemplo: os Beatles! Antes do sucesso, a banda tocou durante três anos na cidade de Hamburgo, em diversas casas noturnas, quase todos os dias da semana, durante 8 horas por dia. Bingo! 10 mil horas de prática.

Outra força influenciadora citada no livro é o legado cultural. E aqui vai um exemplo interessante: jogadores de hockey.

Nas ligas esportivas dos países desenvolvidos, há um grande investimento e incentivo na formação da base, que começa desde muito cedo. Garotos e garotas são treinados desde pequenos e aos seis ou sete anos começam as “peneiras”, para selecionarem as crianças com maior potencial. No estudo apresentado no livro, as crianças nascidas no primeiro semestre tem mais vantagem do que as nascidas no segundo. Apesar de terem a mesma idade, uma criança nascida em janeiro é 11 meses mais velha – e mais experiente – do que uma nascida em dezembro. 1 ano de diferença nesta idade é significativo. Imagine o que acontece se essa criança recebe treinamento intensivo, treinamento tático, preparação física, muscular e psicológica. A diferença de apenas 11 meses passa a ser brutal. Isso ficou “comprovado” na final da liga escolar de hóquei no Canadá, em 2007. A maioria dos jogadores nasceu no primeiro trimestre. A mesma “coincidência” ele encontrou na liga européia de futebol. Essa mesma tese é citada no livro Super Freakonomics, escrito pelo economista Steven Levitt e jornalista Stephen Dubner.

Coincidência? Sorte? Ou trabalho árduo combinado à questão cultural?

Gladwell conta outras histórias de como heranças culturais influenciam as pessoas e podem ser determinantes para a “sorte” de alguns povos. E aqui ele cita os camponeses asiáticos que se caracterizam pela dedicação e persistência – típico comportamento asiáticos, não?

E a diferença entre o sistema de nomeação de números entre as linguas ocidentais e asiáticas? Ao invés de dizer onze, doze e treze, para eles é comum dizer “dezeum”, “dezedois”, “dezetrês” e assim por diante. 25 é “dois dez cinco”. Essa diferença proporciona duas vantagens para as crianças asiáticas: aprendem a contar mais rápido e a fazer conta básica com mais facilidade. As crianças chinesas de 4 anos sabem contar, em média, até 40, enquanto as americanas nessa idade contam até 15 e só chegam aos 40 com 5 anos. Lembra da diferença de 11 meses entre os jogadores de hóquei? Imaginem a diferença que 1 ano faz na educação da matemática nessa criançada – Karen Fuson, citada no livro, fez estudo sobre este tema e concluiu que “Em vez de um aprendizado mecânico, existe um padrão que a pessoa consegue identificar”. Ou seja, as crianças americanas de 5 anos estão um ano atrás das asiáticas na habilidade matemática mais elementar.

É sorte – ou herança cultural – os asiáticos terem mais facilidade com a matemática?

Ainda sobre o tema acima, o que dizer dos árabes (reconhecidamente bons em matemática) e dos franceses? Este último, por exemplo, tem um sistema “próximo” de contagem. Ex: 97 é “quatro vinte dezessete” (quatre vingt dix-sept). O livro não fala nada sobre isso.

 

Gladwell vai longe quando sugere que os desastres aéreos ocorrem com mais frequência entre as tripulações de países que respeitam excessivamente a hierarquia. Segundo o autor, esse tipo de hierarquia (por respeito ou por medo) aniquila a inovação. Nos casos dos acidentes, os subordinados não questionariam o comandante mesmo que estivesse fazendo qualquer tipo de besteira. Eles apenas obedecem. Meio forte isso, não?

Com um olhar diferente do senso comum, utilizando muitos dados e escrevendo de uma forma fluente e leve, Gladwell vem conquistando uma legião de críticos – em especial os acadêmicos – que desafiam suas conclusões e até mesmo os dados mostrados no livro.

Outliers

Outliers

Outliers – Os fora de série – Malcolm Gladwell

O que torna algumas pessoas capazes de atingir um sucesso tão extraordinário e peculiar a ponto de serem chamadas de ‘fora de série’? Costumamos acreditar que trajetórias excepcionais, como a dos gênios que revolucionam o mundo dos negócios, das artes, das ciências e dos esportes, devem-se unicamente ao talento. Mas neste livro você verá que o universo das personalidades brilhantes esconde uma lógica muito mais fascinante e complexa do que aparenta.

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