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Elon Musk – um soco no estômago das indústrias aeroespacial, automotiva e de energia

Os avanços tecnológicos dos anos 60 foram fortemente pautados pela NASA durante a corrida espacial. Na década seguinte, tivemos o boom da eletrônica atingindo o mercado das grandes massas – as TVs em cores, por exemplo. Na década de 80 tivemos o boom das automações em escala industrial, início da informatização, videogames, fitas cassete, gravadores e reprodutores VHS. Nos anos 90 veio o boom do software com a popularização dos computadores, MS-DOS, Windows e globalização (leia-se aqui: terceirização). Nos anos 2000 o boom da Internet, produtos e serviços digitais – e aqui estamos falando basicamente de software.

A tecnologia ao longo dos anos

A tecnologia ao longo dos anos

O novo milênio trouxe uma aproximação entre hardware, software e design. O maior expoente é a Apple, com o Steve Jobs apresentando ao mundo os novos MACs e o iPod. Isso foi um marco para indústria de design: design de hardware, design de software e design de usabilidade. Na esteira vieram o iPhone, iTunes, iPad e uma infinidade de produtos que empurrariam as fronteiras da evolução tecnológica ao limite.

Steve Jobs promoveu uma revolução em 3 indústrias distintas: na de computadores, na de telefonia e de entretenimento.

Desde então, o mundo nunca mais seria o mesmo.

Hardware e Software ganhariam o mesmo nível de importância e preocupação nos novos projetos e isso foi tremendamente popularizado com o surgimento do Arduíno, Rasberry Pi e outras tantas iniciativas destinadas a ensinar e facilitar a integração entre o mundo físico (hardware) com o mundo lógico (software). E começaram a surgir produtos que até então faziam parte de livros de ficção científica: drones, Nest, carros autônomos etc.

O Vale do Silício é o berço de inovações nos Estados Unidos. De lá surgem Yelps, Facebooks, Squares, Twitters, Instagrams, Googles e uma infinidade de empresas da nova economia – e entre elas a Zip2 e a Paypal, de um sul africano erradicado nos EUA, chamado Elon Musk.

Elon Musk

Elon Musk

Musk sofria bullying quando criança, pois era um nerd aficionado por leituras e foguetes. Com uma infância sofrida, conseguiu “fugir” para os Estados Unidos para estudar. Antes deu uma parada no Canadá, trabalhando em uma fazenda, até que chegou a Stanford, para cursar o famoso curso “Sistemas Simbólicos” – curso que integra ciência de computação, design, psicologia e filosofia. Já passaram por esse curso Marissa Mayer (CEO do Yahoo!), Mike Krieger (Co-founder do Instagram), Reid Hoffman (CEO do Linkedin), Scott Forstall (SVP do iOS da Apple), Chris Cox (VP do Facebook) entre outros.

Sua primeira startup – a Zip2 – era uma junção primitiva do Google Maps com Yelp (ambas ainda não existiam). Musk concebeu muitas das primeiras iniciativas que mais tarde se popularizariam na Internet: diretórios, mapas e sites de mercados verticais. Em 1999 a Compaq comprou a Zip2 por 307 milhões de dólares e Musk embolsou US$ 22 milhões.

Então milionário no mundo digital, Musk investiu quase todo dinheiro na X.com, com objetivo de inovar no mundo dos Bancos Online, um mercado borbulhante com a crescente demanda de e-commerce, mas totalmente estagnado, regulamentado e moroso em termos de inovação. Acabou comprando a empresa Confinity de Peter Thiel e Max Levchin, que estava desenvolvendo o PayPal. Apesar da conturbada relação de Musk com os demais sócios, PayPal abriu capital em 2002 e logo na sequência foi comprado pelo eBay, pela bagatela de US$1,5 bilhão. Naquela ocasião, Musk embolsou mais de US$ 300 milhões.

Multimilionário, Elon Musk poderia criar outros tantos produtos de Internet, mas ele queria mais. Muito mais do que o Vale do Silício poderia lhe proporcionar em termos de Internet.

As melhores mentes da minha geração estão pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios e isso é um saco – Jeff Hammerbacher.

Musk quer transformar a raça humana em uma espécie interplanetária.

Musk quer colonizar Marte.

Uma ideia um tanto quanto ousada, quanto maluca.

Queríamos carros voadores e, em vez disso, recebemos 140 caracteres – Peter Thiel.

Com objetivo de encontrar uma forma de preservar a raça humana, Musk começou a defender ferozmente a necessidade de trocar a matriz energética mundial, baseada em combustíveis fósseis, por energia limpa: a energia solar. E começou a colocar em prática sua maluquice: investiu US$100 milhões na SpaceX, US$70 milhões na Tesla e US$10 milhões na SolarCity.

A missão da SpaceX era emergir como a “Southwest Airline do Espaço” com voos low cost para colocar satélites em órbita, abastecer a estação espacial internacional (ISS) e levar o homem a Marte.

O modelo da Tesla era mais que uma afronta ao modo como as montadoras e concessionárias fazem negócio. Era uma aposta sutil no modo como os carros elétricos representam uma nova maneira de pensar o automóvel: 100% elétricos, eficientes, potentes, acessíveis, bonitos e como se fossem gadgets (um aparelho que melhorava depois de comprado, podendo ser atualizado e revisado online à distância).

A SolarCity vem com a proposta de substituir a matriz energética pela energia solar. O custo de instalação de painéis solares é altíssimo e nem sempre o investimento se pagava. A SolarCity instala de graça os painéis e o excedente é comercializado para o governo.

Por que um milionário do Vale do Silício apostou toda sua fortuna em 3 segmentos que estavam estagnados há décadas, que tinham competidores pesados e fortemente financiados pelos governos e altamente regulamentados?

E aqui vale listar alguns aspectos que colocavam Elon Musk cada vez mais na categoria “louco de carteirinha”:

Nenhuma empresa privada tinha recursos financeiros, capital humano e conhecimento técnico para levar um foguete ao espaço. Quiçá um humano. Essa indústria era dominada pela NASA com forte incentivo do governo americano e vinha perdendo espaço ano após ano para outras nações como é o caso da Rússia e da China. Veja bem: estamos falando de nações! Países! Elon queria competir com países!

A indústria automobilística americana estava estagnada há décadas e a cidade Detroit é a maior prova disso. A Califórnia nunca teve tradição na indústria automotiva e havia claramente um incentivo à utilização dos combustíveis fósseis em detrimento à energia limpa – basta olhar o tamanho e o poder de lobby da indústria bélica, da indústria militar, das empresas Shell, Exxon  etc. Todo o conflito no Oriente Médio tem uma motivação financeira por trás, não é mesmo?!

A matriz energética dos EUA se baseia no combustível fóssil (petróleo) e no gás (xisto). Todos estes setores são fortemente regulados com concessões e muitos interesses. Investir em energia limpa – especialmente energia solar – não era interessante do ponto de vista econômico e nem do político…a curto e médio prazo.

E o mais louco de tudo: ele quis construir tudo do zero, sem fornecedores externos. Ele queria competir com os chineses.

Elon faz questão de ter o máximo de controle em suas mãos: prazos, qualidade e custos. E é aficionado em custos: todas decisões são baseadas na relação “taxa de queima de capital”. Ele sabe quanto custa sua equipe e as decisões são baseadas em quanto de retorno irá trazer versus custo de produção. É comum achar caro e reprovar a compra de uma peça por US$2.000 e ao mesmo tempo aprovar um voo emergencial por US$90.000 “apenas” para entregar uma peça na ilha Kwaj, base de lançamento dos primeiros testes de foguetes – neste exemplo, o custo da equipe parada na ilha à espera da peça era maior que o custo da viagem.

Seu ritmo de trabalho era alucinante e exigia o mesmo de seus funcionários. Trabalhava de 80 a 100 horas por semana e, segundo ele, em quatro meses produzia o que qualquer um levaria pelo menos 1 ano. Isso trouxe consequências devastadoras para sua vida pessoal, para os funcionários, parceiros, investidores e em seus relacionamentos amorosos, evidentemente.

Musk pôde estabelecer metas mais agressivas do que qualquer outro executivo da história. Ele levou o modus operandi  do mundo das startups para as indústrias aeroespacial, automotiva e energia. Pensamento Lean, entrega rápida, melhoria contínua, baixo custo, melhores engenheiros, redução de burocracia, baias ao invés de salas fechadas etc.

Com muitos altos e baixos, conseguiu salvar suas empresas da falência diversas vezes. Ora por ajuda de amigos investidores (ex: Larry Page), ora por sorte (ex: ganhou uma concorrência para entregar de suprimentos da NASA para a ISS, sem mesmo ter atingido a órbita).

E Elon Musk está conseguindo entregar o que prometeu.

Apesar de nem sempre cumprir os prazos prometidos, suas empresas estão fazendo os maiores avanços que as indústrias espacial, automotiva e energética não haviam visto em décadas.

A Space X

Space X

Hoje a SpaceX é a melhor esperança dos EUA voltar a desenvolver sua capacidade de levar pessoas ao espaço. A companhia faz por si de 80% a 90% de seus foguetes, motores, equipamentos eletrônicos e outros componentes – tudo isso em solo americano. Apesar de algumas explosões, foi a primeira empresa privada a colocar um foguete em órbita.  Foi a primeira empresa privada a colocar satélites de outros governos em órbita. Foi a primeira empresa privada a abastecer a ISS no espaço. Tudo isso por um custo bem menor do que qualquer outro governo tinha.

Dragon - veículo espacial da SpaceX

Dragon – veículo espacial da SpaceX

E fez o mais incrível: conseguiu lançar um foguete, colocar satélites em órbita e pousar de pé no mesmo local onde fora lançado. Essa é uma conquista e tanto, pois mais de 95% do custo de um lançamento recai sobre o foguete que até então era descartado. O barateamento do lançamento é o primeiro passo para tornar acessível a ideia de fazer vários lançamentos durante um mês e, quem sabe, colonizar Marte. Imagine o custo de uma viagem de navio ou voo comercial se para cada viagem fosse necessário descartar o transporte utilizado. Até então era assim que a indústria aeroespacial trabalhava.

Para ter ideia de ordem de grandeza, um lançamento para a ISS girava na casa de US$1 bilhão de dólares e a SpaceX está se esforçando para trazer esse custo para casa do US$1 milhão. Uma diferença gigantesca!

É bem verdade que tem aparecido algumas empresas privadas querendo entrar neste mercado bilionário, como é o caso da Blue Origin de Jeff Bezos e a Virgin Galactic de Richard Branson, mas Musk já está bem à frente nessa corrida. Ele aspira muito mais do que turismo espacial, Musk quer colonizar Marte.

O objetivo de enviar um homem a Marte é muito mais inspirador do que aquilo que outros estão tentando fazer no espaço. É essa ideia de voltar ao futuro. Houve uma grande redução do programa espacial e as pessoas abandonaram a visão otimista do futuro que tínhamos no início dos anos 1970. A SpaceX mostra que há um caminho para voltar a esse futuro. Há um grande valor no que Elon está fazendo – Peter Thiel.

Assistir aos vídeos dos lançamentos da SpaceX no Youtube é emocionante. Dá para sentir o orgulho e vibração dos funcionários de cada etapa sendo cumprida com sucesso, a ponto de, em coro, gritarem “USA! USA! USA!”. É patriótico para eles.

A Tesla

Tesla

A Tesla, com sua missão de desenvolver um carro 100% elétrico, eficiente, bonito e potente (faz de 0 a 100km/h em menos de 4 segundos), dividiu seu objetivo em 3 fases: a primeira é tirar a ideia do papel com um carro de custo alto (acima dos US$100 mil). A segunda fase é fazer um modelo mais avançado com preços em torno de US$75mil (fase atual). E a última é fazer um carro para a grande massa ao preço de US$35 mil.

E o carro é bonito, viu?! O carro tem chassi 100% em alumínio, tem design agressivo, é inteiramente computadorizado e cheio de touch screen. Não é como os “kinder ovo” lançados pelas montadoras jurássicas, como gosta de falar Musk.

Tesla - Modelo S

Tesla – Modelo S

O proprietário tem sempre a melhor versão disponível – na Tesla não há aquela ideia de “modelo do ano” e nem aquelas revisões programadas, troca de óleo etc e tal. Assim que uma melhoria é implementada, ela já vai para as ruas. Em alguns casos, a atualização – ou revisão – é feita remotamente pela internet. Houve relatos, por exemplo, de que o limpador de para-brisa era mais veloz do que o normal. Enquanto os proprietários dos carros dormiam, a Tesla corrigiu o software e atualizou o sistema remotamente, assim como você faz com seu celular, tablet ou computador.

Elon Musk criou o equivalente automotivo do iPhone.

E mais: ao comprar o carro, o proprietário nunca mais terá que pagar por combustível. A Tesla espalhou pelos Estados Unidos postos de abastecimento de forma gratuita para seus clientes. Hoje já é possível cruzar o país de costa a costa – veja o mapa de abastecimento. A Tesla promete que 30 minutos de carregamento dá autonomia de 300km de viagem.

E adivinha como são carregadas essas baterias? Energia solar. Bingo!

A Tesla ainda desenvolveu um sistema de captura e estoque de energia solar que se assemelhava a uma geladeira e hoje está muito mais para um aquecedor a gás. Esse equipamento, chamado de Powerwall, armazena energia para carregar o carro ou até mesmo o consumo da casa, reduzindo drasticamente o custo da energia elétrica. Hoje a Tesla, em parceria com a Panasonic, está desenvolvendo o maior projeto de produção de baterias avançadas usando Li-Ion e a maior fábrica de energia solar, a Gigafactory.

Os fabricantes de automóveis precisarão de anos para produzir um concorrente real e, mesmo assim, pode ser que não venham a ter um suprimento de baterias disponível para seus veículos, pois aqui entra a terceira grande tacada de Elon.

A SolarCity

SolarCity

A SolarCity oferece instalação de painéis solares gratuitamente cobrando dos seus clientes uma porcentagem em cima da economia de consumo elétrico. O excedente é comercializado para as concessionárias do governo, responsáveis em distribuir energia. Pela primeira vez nos EUA uma empresa privada está quebrando o monopólio de geração e distribuição de energia pelo país.

É a primeira iniciativa mundial, tocada por uma empresa privada, para trocar a matriz energética por energia solar.

SolarCity panels

Painéis solares da SolarCity

Musk detém a empresa líder na tecnologia de transformar a energia solar em energia elétrica, com fins comerciais, mudando a indústria energética daquele país. Esse conhecimento é usado para evoluir e aprimorar o armazenamento e abastecimento da maior frota de carros elétricos e está revolucionando a indústria automobilística. Por fim, todas essas melhorias estão sendo alcançadas e puxadas pela maior empresa privada aeroespacial.

SolarCity é parte essencial do que pode ser chamado de “teoria de campo unificado de Musk”. Todos seus negócios estão interligados a curto e longo prazo.

É comum encontrar comparações e analogias entre Elon Musk e Tony Stark, criador humano do Homem de Ferro. Sim, parece que a ficção está imitando a realidade ou vice-versa. A propósito: Robert Downey Jr, que interpretou Stark nos cinemas, conheceu Elon antes das filmagens e se tornaram amigos a ponto de Musk fazer uma “ponta” em seu segundo filme.

Apesar de toda admiração e legado que vem construindo, devem existir vários “cadáveres no armário” – expressão usada quando existem (e devem existir mesmo) desvios de caráter, informações falsas, omitidas e toda sorte de acontecimentos que não são de conhecimento do público.

Elon Musk não é uma pessoa fácil e vem colecionando uma série de inimigos e desavenças com ex-funcionários e ex-sócios.  Ele parece se importar com a espécie humana como um todo, sem considerar as vontades e necessidades individuais. E pode ser que esse seja exatamente o tipo de pessoa necessária para tornar real a colonização de Marte.

Para mim, a pior característica de Elon, de longe, é sua completa falta de lealdade ou conexão humana – ex funcionário.

De qualquer forma nossa geração, mais uma vez, tem o privilégio de vivenciar uma época em que um indivíduo está promovendo uma evolução de forma gradual e constante em três indústrias distintas: aeroespacial, automotiva e energética.

Muito mais grandioso e impactante do que Steve Jobs. Só o tempo dirá se isso será verdade.

E mais inovação vem por aí. Musk já começa a divulgar o Hyperloop, a Internet estelar e outras tantas novidades.

Assista a entrevista de Elon Musk para Chris Anderson no TED, realizado em fevereiro de 2013.

 


 

Mas a verdade é: Homer Simpsons é quem está por trás de todas inspirações de Elon Musk, segundo o 12º episódio da 26ª temporada do desenho  😉

Elon Musk no episódio dos Simpsons

Elon Musk no episódio dos Simpsons

 


Elon Musk

Elon Musk: como o CEO Bilionário da Spacex e da Tesla Está Moldando Nosso Futuro

Para saber mais detalhes de como as indústrias aeroespacial, energética e automotiva estão passando por uma revolução, recomendo a leitura do livro “Elon Musk: Tesla, Space-X, and the Quest of a Fantastic Future,” (Elon Musk: como o CEO Bilionário da Spacex e da Tesla Está Moldando Nosso Futuro).

Musk é o empreendedor mais ousado de nosso tempo. Poucos nomes de nossa história se equiparam à sua visão engenhosa e ao seu dinamismo incansável. Ele é o homem por trás do PayPal, da Tesla Motors, da SpaceX e da SolarCity, todas companhias responsáveis por verdadeiras revoluções na indústria e no meio corporativo americanos.

Compre o livro Elon Musk: Tesla, Space-X, and the Quest of a Fantastic Future” na Livraria Cultura.